terça-feira, março 27, 2007

if you're tearing down my world, please just try to do it gently

Cheguei em casa tarde, cansado. Corri o dia todo e a casa é sempre o nosso santuário. A cena hoje foi outra. A sala cheia de caixas, caixas e mais caixas. Os móveis fora do lugar. Minha TV e jogos no chão. Não teve móvel da TV para eu pôr minhas coisas em cima, de forma que bloqueasse o sinal do controle remoto. Não tenho mais que levantar e tirar a carteira, celular e chave da frente. Estão em outro lugar. Não tem mais o gancho para pendurar as roupas.É como se eu fosse expelido de dentro para fora. Como se as paredes e os móveis me colocassem pra fora da minha própria casa. A minha casa. Por 13 anos, a minha casa. É bem mais que metade da minha vida, é quase ela toda. A cama permanece, é a única coisa que a gente precisa. Mas amanhã mesmo vem o caminhão e leva ela também embora. A janela com a tela ruim já nem tem mais a tela. O adesivo de seis anos atrás ainda está lá, velho e desbotado. O quadro na parede, ainda está lá, com as mesmas coisas que sempre caem quando balançam a roupa de cama. A estante, vazia, algumas tranqueiras novas e pequenas, que caem por aí. O armário não é mais bagunçado, não tem mais brinquedos em todo canto. Não é mais o mesmo. Umas coisas entram em caixas novas, diferentes. Outras voltam para a caixa de onde saíram. A arrumação é improvisada. É tirar o caramujo e pôr em outra concha. Leva tempo até se acostumar.
A casa nova é uma casca nova de uma casa velha. Muito bonita, de fato, e a gente até se anima pensando no chão branco e bonito que substituiu um plástico horrível. A gente até se anima de pensar no chão e nas paredes de outras cores. A gente fica feliz de pensar que agora as coisas tem outras cores, e a porta de geladeira tem um segurador novo, não colado de volta. Legal pensar que a porta do banheiro tem trinco, não precisa trancar com chave para ela fechar. Nem a porta do quarto. Tudo funciona. Bom pensar na piscina e nos fundos, em não passa calor, em aquecedor solar. Em tecnologia e design. É bom pensar em como o que será é uma melhoria do que era. O ruim é pensar que o que era era sua casa, seu lar, há tanto tempo.
Adeus, Rua Henrique Oswald, 148.
Olá, Rua das Orquídeas, 455.

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